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Justiça da Colômbia proíbe Espriella de usar camisa da seleção em atos eleitorais
Justiça da Colômbia proíbe Espriella de usar camisa da seleção em atos eleitorais
Juíza concluiu que associação da veste com um candidato 'compromete a neutralidade dos símbolos nacionais'
Por Daniela Arcanjo/Folapress
04/06/2026 às 18:20
Atualizado em 04/06/2026 às 21:12
Foto: Reprodução/Instagram
Abelardo de la Espriella não pode mais usar a camisa da seleção da Colômbia para promover a sua candidatura
A partir desta quinta-feira (4), o ultradireitista Abelardo de la Espriella não pode mais usar a camisa da seleção da Colômbia para promover a sua candidatura, como vinha fazendo na corrida pela Presidência do país.
A decisão da juíza Aura Luz Forero, antecipada pelo jornal El Tiempo, proíbe o candidato de usar ou exibir veste, cores ou emblema da seleção colombiana em atividades relacionadas à sua campanha, assim como em redes sociais, meios de comunicação ou qualquer outro espaço para difusão de sua mensagem política.
A medida, que é provisória e entrou em vigor imediatamente, atende a uma solicitação do cidadão Wilman Ramiro Bocanegra Calderón, que afirmou se sentir discriminado e estigmatizado pelo uso da camiseta pela campanha de Espriella.
De acordo com a decisão, cujo documento circula na imprensa colombiana, Calderón pediu a interrupção imediata do uso dos símbolos da seleção pelo ultradireitista para que a identidade nacional não seja vinculada à sua candidatura ou usada para "estigmatizar, qualificar depreciativamente ou atacar aqueles que se identificam com ideias de esquerda ou pensam de maneira diferente".
A juíza concluiu que o uso da camisa por Espriella "cria uma identificação da seleção com uma candidatura específica e compromete a neutralidade dos símbolos nacionais" e confere ao item "um símbolo diferente daquele para o qual foi criado e desenhado".
O candidato adotou a camisa uma semana antes do primeiro turno no último domingo (31), do qual saiu vitorioso. Em seguida, passou a pedir que seus apoiadores fossem votar com a tricolor, o que levou parte de seus mais de 10 milhões de eleitores, o que correspondeu a 43,74% dos votos válidos, a vestir a camisa no dia do pleito.
Espriella ficou quase três pontos percentuais à frente do apadrinhado do presidente Gustavo Petro, Iván Cepeda, com quem disputará o segundo turno, no dia 21 de junho. Trata-se de um feito, considerando a inexperiência política do candidato, que concorre pela primeira vez a um cargo eletivo, e a carteira de clientes de seu escritório de advocacia, por onde passaram paramilitares e narcotraficantes.
A estratégia é uma clara imitação do uso da camisa da seleção pela direita brasileira, que adotou a amarelinha a partir das manifestações de 2013. Assim como no Brasil, a esquerda colombiana contestou o que considera apropriação de um símbolo nacional.
"Por que a camisa da seleção colombiana está sendo usada para fins eleitorais?", escreveu Cepeda no X na segunda (1º), embora a camisa já tenha sido usada, sem a mesma intensidade, por outros políticos, incluindo Petro.
"A seleção colombiana pertence a todos os colombianos. Seu uniforme é um símbolo nacional e está sujeito a restrições comerciais e políticas", continuou, em uma espécie de carta aberta para a Federação Colombiana de Futebol, que pediu para que campanhas se abstenham de usar símbolos característicos da seleção nacional para atrair eleitores.
No contra-ataque, apoiadores de Cepeda imprimiram figurinhas do álbum com o rosto do senador, e o portal de futebol Golpe de Estádio anunciou que fará uma sessão de serigrafia em camisas em uma praça de Bogotá. Os itens serão estampados com ícones da esquerda colombiana, como o líder indígena Manuel Quintín Lame e a cantora Totó la Momposina.
"A camisa da seleção colombiana não pertence a nenhum partido político, muito menos àqueles que tentam usá-la para falar em nome de todo o país", escreveu o portal ao divulgar a iniciativa.
O arco dessa história se parece muito com o que aconteceu no Brasil. Após anos sem usar a camisa da seleção, eleitores de esquerda passaram a readotá-la com alguns símbolos para não serem confundidos com seus adversários, como ilustrações do presidente Lula ou o 13, número do PT, estampado nas costas.
Ao contrário do que ocorreu na Colômbia, porém, os líderes brasileiros não foram proibidos de usar a veste. Em 2022, o Observatório de Transparência da Eleição pediu que o TSE (Tribunal Superior Eleitoral) proibisse que mesários usassem a camisa da seleção sob a justificativa de que o item havia se tornado um símbolo partidário, mas a demanda não foi acatada.
Seguindo o script dos líderes de ultradireita da região, Espriella tem um vasto histórico de falas controversas. Uma das mais recentes também passou por uma reviravolta na Justiça: na terça-feira (2), a juíza Xinia Navarro determinou que o candidato se desculpasse por declarações a respeito do voto feminino no canal de YouTube Piso 8.
Na ocasião, Espriella passou o celular para Laura Rodríguez, única mulher entre os jornalistas da bancada, para que ela explicasse por que uma determinada foto lhe havia garantido "uns votos bem bacanas do eleitorado feminino".
"O que vê aí?" pergunta ele. "Abelardo de la Espriella tomando uma dose", responde ela, antes de ser interrompida pelo candidato. "Não, meu amor, mas o que mais você vê? Não seja tímida", continuou Espriella, tentando fazer a comunicadora falar sobre seus órgãos genitais, que considerou avantajados na imagem.
"Não foi apenas um comentário infeliz. Foi uma completa falta de respeito por mim e pelo meu trabalho. Senti-me violada, assediada e enojada", afirmou a jornalista no X.
"Entendo que, mesmo que não tenha havido intenção da minha parte de ofender, muito menos de desrespeitar, se uma mulher se sente desconfortável, um cavalheiro tem a obrigação moral de se desculpar", escreveu o candidato na mesma rede social.
A desculpa não foi suficiente. Na terça, a juíza Xinia Navarro concluiu que a mensagem "projeta a ideia de que as mulheres tomariam decisões políticas motivadas pela atração física por um candidato, não com base em considerações racionais, programáticas ou ideológicas típicas de uma cidadania autônoma".
A magistrada deu 48 horas para ele se desculpar, o que ocorreu nesta quinta (4). "Caso tenha havido algum inconveniente, reitero minhas desculpas", afirmou o candidato a um programa da revista Semana. "A célula fundamental da sociedade é a família, mas a alma, a célula fundamental da família é a mulher. Sem mulheres não há nada", concluiu, usando a camisa da seleção.
